sexta-feira, 31 de março de 2017

SOBRE Como desatar o nó da estratégia nas empresas familiares?

É frequente a ideia de que grande parte das empresas familiares não tem uma estratégia
definida. Aos que assim pensam, sugere-se uma reflexão. O empreendedor, aquele que
arduamente persiste no seu ideal, o de obter sucesso em seu próprio negócio, não mede
forças para atingir o seu objetivo. Obstinado em seu propósito, vê-se às voltas, na maioria das vezes, e sozinho, a lidar com problemas de produção, de mercado, da área financeira, da falta de recursos, do relacionamento com os clientes, dentre outros. Como se isso não fosse suficiente, há ainda uma longa jornada diária, finais de semana também dedicados ao trabalho e a - total - incerteza de que a empreitada dará certo. Como decorrência, não nos esqueçamos do afastamento da família, do cônjuge e dos filhos. É comum que o empreendedor, em algum momento, sinta culpa de sair cedo de casa, quando os filhos estão dormindo e de voltar ao lar quando também já estão na cama. O empreendedor é um equilibrista. E há vários que obtêm sucesso em empreender, apesar dessa verdadeira constelação de variáveis com as quais têm de conviver. E é aqui que começa a reflexão. Uma avaliação mais detalhada de cada empresa familiar demonstrará, com clareza solar, que cada empreendedor traçou uma – ou várias – estratégias para a sua empresa, até que seu sonho se consolidasse, fazendo os ajustes nos tempos e da maneira que entendeu devessem ser feitos. Consolidada a empresa, o empreendedor segue calibrando a estratégia de acordo com o seu melhor julgamento. Isolado, normalmente não tem tempo nem paciência para estruturar, de forma ordenada, a estratégia do negócio, que existe, mas está no seu DNA e corre nas suas veias. Portanto, é desconhecido dos demais.

Desta forma, os empreendedores que formam as primeiras gerações de um negócios possuem sim estratégias definidas, mas elas estão em “sua cabeça”. A forma como cada empreendedor guia seus pensamentos e como coloca em prática suas ideais associadas a seus negócios, sabendo o que fazer – e o que não fazer, guia, estrategicamente, sua(s) empresa(s).

Desmistificada a crença de que a empresa familiar não tem estratégia, a próxima reflexão que se faz necessária é se ela – assim como descrita acima - seria suficiente para conferir a sustentabilidade exigida para a perpetuação do negócio. A prática demonstra que a existência da estratégia apenas na cabeça do empreendedor faz com que a continuidade do negócio e das relações familiares demandem um esforço adicional, já que é preciso estruturar o negócio, a família e o patrimônio. O desafio, como se pode ver, não é pequeno, mas o seu grau de dificuldade não exime ninguém de encará-lo. E desatar esse nó é que é o verdadeiro desafio.

É muito comum encontrarmos membros da nova geração dizendo: “Precisamos fazer um
Planejamento Estratégico!” e, por outro lado, membros da geração sênior ficando mudos em relação ao assunto, ou achando que isso é “frescura” de quem, em geral, estudou
formalmente mais do que eles. E, aí, o nó entre as gerações, seja de executivos familiares ou não-familiares e os membros das primeiras gerações continua.

A boa notícia é que a governança pode ajudar, e muito.

Quando são montadas estruturas de governança, propiciam-se fóruns para que ocorram
diálogos sobre assuntos muito importantes para a continuidade dos negócios, entre eles,
aquilo que direciona os empreendimentos. Em Conselhos Consultivos ou em Conselhos de
Administração o tema da estratégia torna-se e deve se tornar extremamente frequente.

Em muitos casos, existindo diálogos respeitosos sobre os temas importantes para os negócios, há uma grande aproximação entre as pessoas que compõem o topo da hierarquia empresarial.
Na medida em que estes diálogos se estabelecem, os empreendedores começam a não se
sentirem mais tão sozinhos, pois acabam percebendo que outras pessoas também estão tão comprometidos quanto eles para o sucesso e a continuidade dos negócios.
Estruturas de governança propiciando diálogos respeitosos são formas de desatar alguns nós e propiciar que a estratégia empresarial torne-se mais clara e direcionadora.

(Artigo escrito para publicação na Revista Amanhã)

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